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Salinas
Salinas é incrível e deu para entender
porque morar lá. Até eu quero! E olha que eu saí
de Teresópolis fugida, praticamente batendo os sapatos como
Carlota Joaquina a deixar o Brasil, jurando que daqui não
levaria nem o pó.
Mas Salinas não é Terê, até
porque é menor. Não é uma cidade, é
um lugar, daqueles que só bons cronistas sabem descrever.
Não sou boa cronista, mas vendo as fotos da Elaine no orkut,
deu vontade de descrever esse lugar, sem compromisso, só
para relembrar o sábado, o dia da nossa caminhada. Então...
***
“Era uma vez um lugar, um reino encantado que
não era habitado por fadas, duendes, príncipes ou
princesas, mas sim por escaladores e escaladoras que vêm bravamente
tentando desbravar os seus caminhos, deixando-os mais acessíveis
aos menos aptos, e às vezes mais inacessível para
aqueles mais corajosos que buscam por lá a sua própria
alma. Rô, que logo se torna íntima para aqueles que
chegam, recebe os viajantes: alguns incautos e cansados, outros
caminhantes felizes, e também escaladores e escaladoras de
outros lugares, de outras paragens, algumas tão mágicas
quanto. E quando os recebe, faz isso com o coração
aberto e uma água quente, e a sensação de que
se chegou em casa.
No sábado eu visitei esse lugar e às
vezes acho que ele não é de verdade, tamanha as surpresas
que nos guarda. Pela manhã, Bárbara, não satisfeita
em alimentar o pequeno
Heitor, compartilhou comigo seu café da manhã,
em que se sentia também o gosto da generosidade. Saímos,
nossa guia Dindi à frente - meio fada, meio mulher. O grande
Heitor também foi conosco, pois na noite anterior já
demonstrava que não queria ficar fora da aventura: porque
ainda não tem tantas pernas, contou com a ajuda do papai.
Elaine encerrava a fila, entremeando caminhos, registrando momentos,
intercalando as vontades dos oito caminhantes.
O sol mostrava que a caminhada seria muito bonita.
Eu ainda não havia visto os famosos Três Picos - aliás,
meu olhar estava embotado, porque demorei a ver muitas coisas. Prestava
atenção no passo-a-passo do caminho e no que nossa
Guia dizia. Eu já pressentia que iria repetir muitas vezes
essa caminhada, então os marcos se tornaram importantes,
para não me perder pelo caminho.
Paradas para descanso, para fotos, para a contemplação
e para reencontros. E na chegada ao Mascarim, outro reencontro aconteceu:
Paula resolve nos acompanhar ao lado de seu príncipe, completando
com Alessandra a tríade de casais. A caminhada se estreitou
com uma floresta mais fechada, mais escorregadia e mais arredia.
O tempo se fechou e o que era sol forte virou neblina. E com ela
a sensação de caminhar dentro da nuvem, de saber o
que acontece dentro dela: dentro dela as pessoas caminham rumo aos
seus objetivos, nada lógico, nada coerente, apenas sensibilidade.
Novos encontros, desta vez com a família Mascarin, e a sensação
de estar bem perto.
O cume da Cabeça do Dragão - este sim
o nosso objetivo - parecia perto para os inocentes. Mas não
se daria assim tão fácil a qualquer transeunte. Para
chegar até ele é preciso ser caminhante e avançar
calmamente, pedra sobre pedra, desviando das bromélias que
teimam em nascer na rocha. Assim fizemos e lá chegamos. Paisagem
densa, de frio, de fome e de satisfação.
Voltamos e, com nosso retorno, o sol também
reapareceu, brilhou intenso, apesar de frio. E avisou que se quisermos
realmente desbravar Salinas, uma vez só não basta.
É preciso insistir em descobrir seus caminhos. Assim como
aqueles que desbravaram esse lugar para lá habitarem.”
***
Para quem chegou até aqui, é óbvio
que o relato é também uma ode às mulheres,
não porque sou mulher, mas pela generosidade que demonstram
comigo compartilhando sua comida, sua barraca e seu carro.
Elizete Ignácio
Minha primeira guiada em Salinas
Conheci Salinas ainda este ano, mas meu primeiro
contato já foi suficiente para entender o porquê de
tantos escaladores endeusam os majestosos Três Picos.
Salinas é mágica, poética, imponente
e cordial. Cordial, pois nos dá uma alegria, um entusiasmo,
uma energia, uma paz, simplesmente por estar em contato com tão
suntuosas montanhas. Ainda não escalei em suas audaciosas
vias, mas caminhei algumas vezes por seus vales, que fazem jus ao
nome, “dos deuses”!
No último fim de semana de junho, Kika, da
Aguiperj convidou a todos para a inauguração do Clube
das Luluzinhas da Montanha. A idéia era escalar no sábado
e após o cansativo e prazeroso dia, fazer um festão
junino no Abrigo do Sergio Tartari, firmando assim mais um domínio
feminino.
Como ainda sou recém-formada, nem me aventurei
a encarar uma das D4, E4, E2 ou E0 de Salinas. Botei minha viola
no saco e fui fazer uma caminhada que adoro: a Cabeça do
Dragão. Era a primeira vez que guiaria um grupo, afinal nas
outras vezes contei com Monique, que ia me explicando tudo sobre
a região, e na seguinte, com um grande grupo de CEGuianos
e agregados.
Saímos do Abrigo do Tartari por volta das
10 da matina. Éramos 9 pessoas: eu, Elaine e Elizete (recém
formadas do CBM), Rodrigo, Bárbara e o Bonitinho (Heitor),
Sandro, namorado da Paula Gabi e mais dois amigos do casal. Prometemos
a Rô, esposa do Tartari, que logo estaríamos de volta,
a tempo de ajudar nos preparativos da festa.
A saída do Abrigo é feita cruzando
o rio que o margeia. Dali sobe-se por uma trilha bem aberta chegando
em uma estradinha. Á esquerda desta encontramos a estrada
principal e de lá partimos para cima retomando a trilha ao
avistar uma grande porteira. A trilha margeia o terreno desta propriedade
particular. É bem fácil e aberta. Dela avistamos o
Morro do Gato, local que segundo a Monique, tem esse nome pela grande
quantidade de gatos selvagens que abrigava. O dia estava muito agradável
e limpo, o que nos permitiu abusar das máquinas fotográficas.
Há boas indicações na trilha,
exceto quando nos deparamos com um pasto, onde Elaine tomou uma
corrida dos cavalos e eu e Elizete ganhamos alguns amigos que nos
importunariam ao longo da semana. A placa apontava para cima, cruzando
uma porteira, mas o caminho mais fácil era seguir reto, no
meio de um pasto com um curral a esquerda, cruzando uma porteira
e depois passando por um charco. De lá é um minutinho
até o abrigo Três Picos, do carismático Mascarim.
O bebê e seus pais partiram na frente por questões
da natureza. Chegamos minutos depois, para alegria do casal Gabi
e Sandro, pois Gabi e Rodolfo após escalarem, estavam relaxando
na varanda do Abrigo. Agora éramos 10!
Após esta breve parada para recarregar as
energias, abandonar alguns casacos e encher as garrafinhas de água
da banheira, partimos rumo a Cabeça do Dragão.
O caminho é o tempo todo contemplado com os
três magos: Pico Maior, Pico Menor e Capacete. Algumas paradas
para fotos com suas majestades, para procurar os escaladores nas
vias e assim nos embrenhamos mata a dentro. A subida tênue
foi ficando cada vez mais fresca, como bem observou Rodrigo, Salinas
tem seu microclima e não há climatempo que acerte
100%.
Chegamos no platô da Cabeça cerca de
13h30 e tivemos a agradável surpresa de dividi-lo com a família
Mascarim. Fizemos um lanche, tomamos um ar para enfim encarar a
pedra e chegar ao cume. Infelizmente o tempo havia mudado e onde
antes era céu azul e lindos morros sem fim no horizonte,
agora era branco. Heitor, Bárbara e Rodrigo desceram dali,
temendo o frio para o bebê. O resto do grupo partiu para os
minutos finais. O caminho ao cume mistura escalaminhada com mata,
muito bonito! Chegamos ao cume por volta das 14 horas e para nossa
surpresa havia um grupo de 7 pessoas fazendo um rodízio de
massas lá! Esses montanhistas...
De fato, nada víamos além da imensidão
branca, mas podíamos sentir o frescor da altura e o mundo
abaixo de nós!
O retorno foi tranqüilo, reencontrando o casal
e seu bonitinho, a família Mascarim, e a organizadora do
evento, Kika Bradford.
Bem, quebramos nossa promessa com a Rô, pois
não tivemos tempo de ajudar no preparo do caldo verde ou
na decoração, que ficaram ótimos, mas contribuímos
com a animação, agora renovada, dos CEGuianos, garantindo
assim um arraiá digno das grandes Lulus!
Dione Conde
Fominhas de pedra, sedentos de água
e quase mortos pelo calor
Thiers Meireles e eu éramos fominhas de pedra.
Thiers possuía uma Kombi, o que nos dava grande mobilidade
no Rio de Janeiro dos anos 60 e 70. Era comum fazermos um K2 e depois
seguirmos para o Pão de Açúcar fazer um CEPI,
só para rebater.
Uma condução própria naqueles
tempos era uma mão na roda para escaladas na Agulhinha da
Gávea e na Pedra Bonita. Podíamos chegar cedo, nunca
éramos os segundos a entrar nas vias e, conseqüentemente,
terminávamos cedo, sobrando tempo para outra escalada.
Num sábado de novembro, em 1968, fomos escalar
o paredão Olimpo (que, aliás, não tem nada
de mitológico. O nome foi dado para explicar a parte limpa
de um setor da Agulhinha – o limpo).
Ao terminarmos, o Thiers fez o convite – Schmidt
você conhece a igreja da Pena em Jacarepaguá? Eu só
conhecia o morro de longe, nunca havia subido nele.
Então vamos beber uma cervejinha na sub-sede
do Parque da Tijuca, que é caminho, e vamos para o paredão
da Pena! É uma escaladinha fácil e vou deixar a Kombi
na parte de cima do morro.
Lá fomos nós para a tal sub-sede, atualmente
é uma favela na descida entre o Alto da Tijuca e a Barra,
mas na época era um lugar bem interessante, com um bar nas
margens de um rio (limpo) que descia do Alto.
Terminada a cerveja, seguimos para a Freguesia e
deixamos a Kombi na parte alta do morro. Pegamos nossos equipamentos
e descemos pela estrada de acesso e contornamos a pedra até
a base... mas aí percebemos a mancada... fazia um calor do
cão!!! Era uma soleira que fazia gosto!!!
Se quem está na chuva é para se molhar...
quem estava no sol era para se queimar... e tocamos para frente!
O Thiers me deu as coordenadas e lá fui eu
queimando as mãos e os pés (escalava descalço
naquela época) até chegar bem próximo do último
grampo.
O problema se agravou com o calor que emanava da
pedra e eu já estava no limite quando dominei o grampo e
preparei a chegada do Thiers. O procedimento foi um pouco demorado
e eu já estava entrando em transe com o calor, quando ouvi
um chamado...
- Moço... o que você está fazendo
aí? Era um garotinho de uns cinco ou seis anos, que ouvindo
nosso diálogo (aos gritos) resolveu ir além do recomendado
pela segurança... para olhar o que estava acontecendo.
Eu respondi quase morto...
- Pede a sua mãe para trazer água!!!
Eu estou passando mal e o cara que está mais embaixo também!!!
O garoto saiu gritando... “Mãeeee o moço está
querendo água!!!”
Graças a Deus a mãe apareceu com ÁGUA!!!!
(a família morava na casa paroquial da igreja da Pena). Foi
a salvação!!! Agradecemos a hospitalidade, descansamos
e fomos embora jurando que nunca mais haveríamos de escalar
sob um sol de rachar!!!
É claro que outras aconteceram!!! Mas será
matéria para outras histórias!
Roberto Schmidt
Travessia Terê-Petrô
2008
Como faço todos os anos, desde minha época
do Carioca, abri no CERJ e no CEG mais uma Travessia de um dia.
Para variar um pouco, escolhi o trajeto Teresópolis x Petrópolis.
Sábado, 07 de junho...o dia promete.
Éramos eu, Zé, Velho, Dany Boy, Maia,
Sebá e Éder pelo CERJ e Aline, Marcinha e Luis Alberto
pelo Guanabara. Saímos da Urca às 6h15. O Luis Alberto
se confundiu com o horário e acabou perdendo a van. Nos encontrou
no Alemão, em Caxias, onde deixou seu carro. Fizemos uma
pequena parada no Posto Garrafão para um café da manhã.
Entramos no Parque sem problemas é as 8h40 iniciamos nossa
jornada. Com 2h40 de caminhada, chegávamos no Abrigo 4. Excelente
tempo.
O tempo deu uma fechada, mas não o suficiente
para atrapalhar o visual. Bom porque não caminhamos debaixo
do sol. Sob muitas brincadeiras de rixas entre os clubes e várias
gargalhadas, os obstáculos foram sendo superados: Cavalinho,
Antas, Elevador, Luva, Marco. Chegamos aos Castelos do Açu
às 16h15 já começando a bater um cansaço.
Bom, agora é só pra baixo... ai meus joelhos!
Fomos brindados no Chapadão por um indescritível
por do sol, onde ele brincava de se esconder entre as nuvens e tendo
como espectadores, além de nós, é claro, Maria
Comprida, Alcobaça e Mãe D’Água, Congonhas
e toda a Serra Petropolitana – que brinde de fim de Travessia.
Do Ajax pra baixo foi à luz de lanternas.
O astral continuava alto. Findamos a Travessia às 19h15.
Caminhamos mais um pouco pela estrada até encontrarmos com
o Gabriel e sua Van. Conforme havíamos combinado, ele nos
esperava com duas caixas de cerveja Itaipava geladíssimas!
Sob a noite e a alegria de ter feito algo tão legal, brindamos
por esse dia de montanhas e amigos.
De volta para Urca, a van se tornou um pequeno boteco
móvel, onde todos tomávamos cervejinha, degustando
o que sobrara de comida de nossas mochilas... um luxo.
Ano que vem tem mais.
Waldecy Lucena
Decadence avec Elegance
Tenho ido escalar em Salinas com certa freqüência.
Gosto muito do clima de lá e das montanhas obviamente. Mas
das últimas vezes tenho escalado somente no Capacete (já
contabilizei 10 vezes no cume). Na última vez prometi que
a próxima escalada seria uma via à vista no Pico Maior.
Combinei com o Play de fazer a “Decadence avec Elegance”
no dia 28 de junho. Um dia antes chegamos ao abrigo do Serginho
e fui dormir cedo, visto que tinha virado a noite anterior por conta
de compromissos alcoólicos. Acordamos às 4h com muito
frio e partimos às 5h agasalhados, visto que a temperatura
era 5ºC. Mas por conta do exercício não sentimos
muito frio.
Ainda estava escuro e acabamos perdendo algum tempo
procurando a trilha certa. Por conta disso chegamos na base (supostamente)
às 7h e às 7h30 comecei o primeiro esticão.
A idéia era fazer o máximo possível em dinâmica
para ganhar tempo.
Bem, o início foi decadence: no segundo esticão
já desconfiava de estar na via errada por conta dela ir muito
para a esquerda. Mas a memória do Play não ajudava
e também eu não enxergava nada para a direita. Mais
para cima e para a esquerda concluí que estávamos
realmente na via errada (Mateus Arnaud) e desanimei um pouco (tanto
esforço...). As opções eram seguir pela Mateus
ou mais para cima desviar para a Decadence num ponto onde ficam
próximas. Um pouco antes do que imaginávamos vi uma
chapeleta à direita. Sem pensar muito fui até ela
e logo percebi que tinha enfim encontrado a via que queria.
Isso foi por perto da P8, e abaixo da primeira chaminé
da Leste. Pelo croqui vi que o melhor da via ainda estava por vir
e aí rolou um pouco de elegance, já que a linha da
via ficava bem mais legal do que até então. Fomos
tocando e logo vieram lances mais delicados, onde diminuímos
bem o ritmo. Foram cerca de 5 esticões com lances de Vsup,
VI e até VIIa intercalando proteções fixas
e móveis.
Por não conhecer a via, às vezes demorávamos
estudando a linha correta a seguir e também para guiar. Após
uma seqüência de lances desse calibre, a decadence foi
voltando por conta do cansaço. Comecei a ficar preocupado
com o tempo porque estávamos realmente lentos. Por conta
do cansaço, do frio e da dificuldade de alguns lances houve
esticão que demoramos uma hora para escalar. Mas continuamos
persistentes até porque rapelar aquilo tudo não era
nada atraente.
Chegamos no cume às 16h. Atravessamos e lanchamos
junto aos grampos do rapel da Silvio Mendes. Neste dia ninguém
além de nós escalou a face leste. E também
ninguém podia nos ver por conta das nuvens. Mas foi uma realização
pessoal conseguir chegar no cume por outra via. Como sabíamos
que estávamos cansados, combinamos de ficar checando um ao
outro sempre para evitar qualquer erro. Era certo que ia escurecer
na descida... Em 2h10 chegamos no colo e em mais 1h10 chegamos no
Serginho (achei muito bom esse tempo).
Quando chegamos (às 20h) a festa junina já
tinha começado, mas a gente só queria comer, tomar
banho e descansar. Por conta do estado de bagaço não
deu pra aproveitar tanto a festa, mas paciência...
Próximos projetos para o Pico Maior:
- voltar na Decadence com um pouco mais de elegance
para fazer a via inteira e melhorar o tempo
-aprender a descida pela Cidade dos Ventos
-escalar o Arco da Velha
Estou vibrando com esta temporada!
Boris Flegr
As
matérias aqui publicadas não representam necessariamente
a posição oficial do Centro Excursionista Guanabara.
Ressaltamos que este é um espaço aberto a todos que
queiram contribuir.
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