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Salinas

Salinas é incrível e deu para entender porque morar lá. Até eu quero! E olha que eu saí de Teresópolis fugida, praticamente batendo os sapatos como Carlota Joaquina a deixar o Brasil, jurando que daqui não levaria nem o pó.

Mas Salinas não é Terê, até porque é menor. Não é uma cidade, é um lugar, daqueles que só bons cronistas sabem descrever. Não sou boa cronista, mas vendo as fotos da Elaine no orkut, deu vontade de descrever esse lugar, sem compromisso, só para relembrar o sábado, o dia da nossa caminhada. Então...

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“Era uma vez um lugar, um reino encantado que não era habitado por fadas, duendes, príncipes ou princesas, mas sim por escaladores e escaladoras que vêm bravamente tentando desbravar os seus caminhos, deixando-os mais acessíveis aos menos aptos, e às vezes mais inacessível para aqueles mais corajosos que buscam por lá a sua própria alma. Rô, que logo se torna íntima para aqueles que chegam, recebe os viajantes: alguns incautos e cansados, outros caminhantes felizes, e também escaladores e escaladoras de outros lugares, de outras paragens, algumas tão mágicas quanto. E quando os recebe, faz isso com o coração aberto e uma água quente, e a sensação de que se chegou em casa.

No sábado eu visitei esse lugar e às vezes acho que ele não é de verdade, tamanha as surpresas que nos guarda. Pela manhã, Bárbara, não satisfeita em alimentar o pequeno

Heitor, compartilhou comigo seu café da manhã, em que se sentia também o gosto da generosidade. Saímos, nossa guia Dindi à frente - meio fada, meio mulher. O grande Heitor também foi conosco, pois na noite anterior já demonstrava que não queria ficar fora da aventura: porque ainda não tem tantas pernas, contou com a ajuda do papai. Elaine encerrava a fila, entremeando caminhos, registrando momentos, intercalando as vontades dos oito caminhantes.

O sol mostrava que a caminhada seria muito bonita. Eu ainda não havia visto os famosos Três Picos - aliás, meu olhar estava embotado, porque demorei a ver muitas coisas. Prestava atenção no passo-a-passo do caminho e no que nossa Guia dizia. Eu já pressentia que iria repetir muitas vezes essa caminhada, então os marcos se tornaram importantes, para não me perder pelo caminho.

Paradas para descanso, para fotos, para a contemplação e para reencontros. E na chegada ao Mascarim, outro reencontro aconteceu: Paula resolve nos acompanhar ao lado de seu príncipe, completando com Alessandra a tríade de casais. A caminhada se estreitou com uma floresta mais fechada, mais escorregadia e mais arredia. O tempo se fechou e o que era sol forte virou neblina. E com ela a sensação de caminhar dentro da nuvem, de saber o que acontece dentro dela: dentro dela as pessoas caminham rumo aos seus objetivos, nada lógico, nada coerente, apenas sensibilidade. Novos encontros, desta vez com a família Mascarin, e a sensação de estar bem perto.

O cume da Cabeça do Dragão - este sim o nosso objetivo - parecia perto para os inocentes. Mas não se daria assim tão fácil a qualquer transeunte. Para chegar até ele é preciso ser caminhante e avançar calmamente, pedra sobre pedra, desviando das bromélias que teimam em nascer na rocha. Assim fizemos e lá chegamos. Paisagem densa, de frio, de fome e de satisfação.

Voltamos e, com nosso retorno, o sol também reapareceu, brilhou intenso, apesar de frio. E avisou que se quisermos realmente desbravar Salinas, uma vez só não basta. É preciso insistir em descobrir seus caminhos. Assim como aqueles que desbravaram esse lugar para lá habitarem.”

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Para quem chegou até aqui, é óbvio que o relato é também uma ode às mulheres, não porque sou mulher, mas pela generosidade que demonstram comigo compartilhando sua comida, sua barraca e seu carro.

Elizete Ignácio


Minha primeira guiada em Salinas

Conheci Salinas ainda este ano, mas meu primeiro contato já foi suficiente para entender o porquê de tantos escaladores endeusam os majestosos Três Picos.

Salinas é mágica, poética, imponente e cordial. Cordial, pois nos dá uma alegria, um entusiasmo, uma energia, uma paz, simplesmente por estar em contato com tão suntuosas montanhas. Ainda não escalei em suas audaciosas vias, mas caminhei algumas vezes por seus vales, que fazem jus ao nome, “dos deuses”!

No último fim de semana de junho, Kika, da Aguiperj convidou a todos para a inauguração do Clube das Luluzinhas da Montanha. A idéia era escalar no sábado e após o cansativo e prazeroso dia, fazer um festão junino no Abrigo do Sergio Tartari, firmando assim mais um domínio feminino.

Como ainda sou recém-formada, nem me aventurei a encarar uma das D4, E4, E2 ou E0 de Salinas. Botei minha viola no saco e fui fazer uma caminhada que adoro: a Cabeça do Dragão. Era a primeira vez que guiaria um grupo, afinal nas outras vezes contei com Monique, que ia me explicando tudo sobre a região, e na seguinte, com um grande grupo de CEGuianos e agregados.

Saímos do Abrigo do Tartari por volta das 10 da matina. Éramos 9 pessoas: eu, Elaine e Elizete (recém formadas do CBM), Rodrigo, Bárbara e o Bonitinho (Heitor), Sandro, namorado da Paula Gabi e mais dois amigos do casal. Prometemos a Rô, esposa do Tartari, que logo estaríamos de volta, a tempo de ajudar nos preparativos da festa.

A saída do Abrigo é feita cruzando o rio que o margeia. Dali sobe-se por uma trilha bem aberta chegando em uma estradinha. Á esquerda desta encontramos a estrada principal e de lá partimos para cima retomando a trilha ao avistar uma grande porteira. A trilha margeia o terreno desta propriedade particular. É bem fácil e aberta. Dela avistamos o Morro do Gato, local que segundo a Monique, tem esse nome pela grande quantidade de gatos selvagens que abrigava. O dia estava muito agradável e limpo, o que nos permitiu abusar das máquinas fotográficas.

Há boas indicações na trilha, exceto quando nos deparamos com um pasto, onde Elaine tomou uma corrida dos cavalos e eu e Elizete ganhamos alguns amigos que nos importunariam ao longo da semana. A placa apontava para cima, cruzando uma porteira, mas o caminho mais fácil era seguir reto, no meio de um pasto com um curral a esquerda, cruzando uma porteira e depois passando por um charco. De lá é um minutinho até o abrigo Três Picos, do carismático Mascarim.

O bebê e seus pais partiram na frente por questões da natureza. Chegamos minutos depois, para alegria do casal Gabi e Sandro, pois Gabi e Rodolfo após escalarem, estavam relaxando na varanda do Abrigo. Agora éramos 10!

Após esta breve parada para recarregar as energias, abandonar alguns casacos e encher as garrafinhas de água da banheira, partimos rumo a Cabeça do Dragão.

O caminho é o tempo todo contemplado com os três magos: Pico Maior, Pico Menor e Capacete. Algumas paradas para fotos com suas majestades, para procurar os escaladores nas vias e assim nos embrenhamos mata a dentro. A subida tênue foi ficando cada vez mais fresca, como bem observou Rodrigo, Salinas tem seu microclima e não há climatempo que acerte 100%.

Chegamos no platô da Cabeça cerca de 13h30 e tivemos a agradável surpresa de dividi-lo com a família Mascarim. Fizemos um lanche, tomamos um ar para enfim encarar a pedra e chegar ao cume. Infelizmente o tempo havia mudado e onde antes era céu azul e lindos morros sem fim no horizonte, agora era branco. Heitor, Bárbara e Rodrigo desceram dali, temendo o frio para o bebê. O resto do grupo partiu para os minutos finais. O caminho ao cume mistura escalaminhada com mata, muito bonito! Chegamos ao cume por volta das 14 horas e para nossa surpresa havia um grupo de 7 pessoas fazendo um rodízio de massas lá! Esses montanhistas...

De fato, nada víamos além da imensidão branca, mas podíamos sentir o frescor da altura e o mundo abaixo de nós!

O retorno foi tranqüilo, reencontrando o casal e seu bonitinho, a família Mascarim, e a organizadora do evento, Kika Bradford.

Bem, quebramos nossa promessa com a Rô, pois não tivemos tempo de ajudar no preparo do caldo verde ou na decoração, que ficaram ótimos, mas contribuímos com a animação, agora renovada, dos CEGuianos, garantindo assim um arraiá digno das grandes Lulus!

Dione Conde


Fominhas de pedra, sedentos de água e quase mortos pelo calor

Thiers Meireles e eu éramos fominhas de pedra. Thiers possuía uma Kombi, o que nos dava grande mobilidade no Rio de Janeiro dos anos 60 e 70. Era comum fazermos um K2 e depois seguirmos para o Pão de Açúcar fazer um CEPI, só para rebater.

Uma condução própria naqueles tempos era uma mão na roda para escaladas na Agulhinha da Gávea e na Pedra Bonita. Podíamos chegar cedo, nunca éramos os segundos a entrar nas vias e, conseqüentemente, terminávamos cedo, sobrando tempo para outra escalada.

Num sábado de novembro, em 1968, fomos escalar o paredão Olimpo (que, aliás, não tem nada de mitológico. O nome foi dado para explicar a parte limpa de um setor da Agulhinha – o limpo).

Ao terminarmos, o Thiers fez o convite – Schmidt você conhece a igreja da Pena em Jacarepaguá? Eu só conhecia o morro de longe, nunca havia subido nele.

Então vamos beber uma cervejinha na sub-sede do Parque da Tijuca, que é caminho, e vamos para o paredão da Pena! É uma escaladinha fácil e vou deixar a Kombi na parte de cima do morro.

Lá fomos nós para a tal sub-sede, atualmente é uma favela na descida entre o Alto da Tijuca e a Barra, mas na época era um lugar bem interessante, com um bar nas margens de um rio (limpo) que descia do Alto.

Terminada a cerveja, seguimos para a Freguesia e deixamos a Kombi na parte alta do morro. Pegamos nossos equipamentos e descemos pela estrada de acesso e contornamos a pedra até a base... mas aí percebemos a mancada... fazia um calor do cão!!! Era uma soleira que fazia gosto!!!

Se quem está na chuva é para se molhar... quem estava no sol era para se queimar... e tocamos para frente!

O Thiers me deu as coordenadas e lá fui eu queimando as mãos e os pés (escalava descalço naquela época) até chegar bem próximo do último grampo.

O problema se agravou com o calor que emanava da pedra e eu já estava no limite quando dominei o grampo e preparei a chegada do Thiers. O procedimento foi um pouco demorado e eu já estava entrando em transe com o calor, quando ouvi um chamado...

- Moço... o que você está fazendo aí? Era um garotinho de uns cinco ou seis anos, que ouvindo nosso diálogo (aos gritos) resolveu ir além do recomendado pela segurança... para olhar o que estava acontecendo.

Eu respondi quase morto...

- Pede a sua mãe para trazer água!!! Eu estou passando mal e o cara que está mais embaixo também!!! O garoto saiu gritando... “Mãeeee o moço está querendo água!!!”

Graças a Deus a mãe apareceu com ÁGUA!!!! (a família morava na casa paroquial da igreja da Pena). Foi a salvação!!! Agradecemos a hospitalidade, descansamos e fomos embora jurando que nunca mais haveríamos de escalar sob um sol de rachar!!!

É claro que outras aconteceram!!! Mas será matéria para outras histórias!

Roberto Schmidt


Travessia Terê-Petrô 2008

Como faço todos os anos, desde minha época do Carioca, abri no CERJ e no CEG mais uma Travessia de um dia. Para variar um pouco, escolhi o trajeto Teresópolis x Petrópolis.

Sábado, 07 de junho...o dia promete.

Éramos eu, Zé, Velho, Dany Boy, Maia, Sebá e Éder pelo CERJ e Aline, Marcinha e Luis Alberto pelo Guanabara. Saímos da Urca às 6h15. O Luis Alberto se confundiu com o horário e acabou perdendo a van. Nos encontrou no Alemão, em Caxias, onde deixou seu carro. Fizemos uma pequena parada no Posto Garrafão para um café da manhã. Entramos no Parque sem problemas é as 8h40 iniciamos nossa jornada. Com 2h40 de caminhada, chegávamos no Abrigo 4. Excelente tempo.

O tempo deu uma fechada, mas não o suficiente para atrapalhar o visual. Bom porque não caminhamos debaixo do sol. Sob muitas brincadeiras de rixas entre os clubes e várias gargalhadas, os obstáculos foram sendo superados: Cavalinho, Antas, Elevador, Luva, Marco. Chegamos aos Castelos do Açu às 16h15 já começando a bater um cansaço. Bom, agora é só pra baixo... ai meus joelhos!

Fomos brindados no Chapadão por um indescritível por do sol, onde ele brincava de se esconder entre as nuvens e tendo como espectadores, além de nós, é claro, Maria Comprida, Alcobaça e Mãe D’Água, Congonhas e toda a Serra Petropolitana – que brinde de fim de Travessia.

Do Ajax pra baixo foi à luz de lanternas. O astral continuava alto. Findamos a Travessia às 19h15. Caminhamos mais um pouco pela estrada até encontrarmos com o Gabriel e sua Van. Conforme havíamos combinado, ele nos esperava com duas caixas de cerveja Itaipava geladíssimas! Sob a noite e a alegria de ter feito algo tão legal, brindamos por esse dia de montanhas e amigos.

De volta para Urca, a van se tornou um pequeno boteco móvel, onde todos tomávamos cervejinha, degustando o que sobrara de comida de nossas mochilas... um luxo.

Ano que vem tem mais.

Waldecy Lucena


Decadence avec Elegance

Tenho ido escalar em Salinas com certa freqüência. Gosto muito do clima de lá e das montanhas obviamente. Mas das últimas vezes tenho escalado somente no Capacete (já contabilizei 10 vezes no cume). Na última vez prometi que a próxima escalada seria uma via à vista no Pico Maior. Combinei com o Play de fazer a “Decadence avec Elegance” no dia 28 de junho. Um dia antes chegamos ao abrigo do Serginho e fui dormir cedo, visto que tinha virado a noite anterior por conta de compromissos alcoólicos. Acordamos às 4h com muito frio e partimos às 5h agasalhados, visto que a temperatura era 5ºC. Mas por conta do exercício não sentimos muito frio.

Ainda estava escuro e acabamos perdendo algum tempo procurando a trilha certa. Por conta disso chegamos na base (supostamente) às 7h e às 7h30 comecei o primeiro esticão. A idéia era fazer o máximo possível em dinâmica para ganhar tempo.

Bem, o início foi decadence: no segundo esticão já desconfiava de estar na via errada por conta dela ir muito para a esquerda. Mas a memória do Play não ajudava e também eu não enxergava nada para a direita. Mais para cima e para a esquerda concluí que estávamos realmente na via errada (Mateus Arnaud) e desanimei um pouco (tanto esforço...). As opções eram seguir pela Mateus ou mais para cima desviar para a Decadence num ponto onde ficam próximas. Um pouco antes do que imaginávamos vi uma chapeleta à direita. Sem pensar muito fui até ela e logo percebi que tinha enfim encontrado a via que queria.

Isso foi por perto da P8, e abaixo da primeira chaminé da Leste. Pelo croqui vi que o melhor da via ainda estava por vir e aí rolou um pouco de elegance, já que a linha da via ficava bem mais legal do que até então. Fomos tocando e logo vieram lances mais delicados, onde diminuímos bem o ritmo. Foram cerca de 5 esticões com lances de Vsup, VI e até VIIa intercalando proteções fixas e móveis.

Por não conhecer a via, às vezes demorávamos estudando a linha correta a seguir e também para guiar. Após uma seqüência de lances desse calibre, a decadence foi voltando por conta do cansaço. Comecei a ficar preocupado com o tempo porque estávamos realmente lentos. Por conta do cansaço, do frio e da dificuldade de alguns lances houve esticão que demoramos uma hora para escalar. Mas continuamos persistentes até porque rapelar aquilo tudo não era nada atraente.

Chegamos no cume às 16h. Atravessamos e lanchamos junto aos grampos do rapel da Silvio Mendes. Neste dia ninguém além de nós escalou a face leste. E também ninguém podia nos ver por conta das nuvens. Mas foi uma realização pessoal conseguir chegar no cume por outra via. Como sabíamos que estávamos cansados, combinamos de ficar checando um ao outro sempre para evitar qualquer erro. Era certo que ia escurecer na descida... Em 2h10 chegamos no colo e em mais 1h10 chegamos no Serginho (achei muito bom esse tempo).

Quando chegamos (às 20h) a festa junina já tinha começado, mas a gente só queria comer, tomar banho e descansar. Por conta do estado de bagaço não deu pra aproveitar tanto a festa, mas paciência...

Próximos projetos para o Pico Maior:

- voltar na Decadence com um pouco mais de elegance para fazer a via inteira e melhorar o tempo

-aprender a descida pela Cidade dos Ventos

-escalar o Arco da Velha

Estou vibrando com esta temporada!

Boris Flegr


As matérias aqui publicadas não representam necessariamente a posição oficial do Centro Excursionista Guanabara. Ressaltamos que este é um espaço aberto a todos que queiram contribuir.